Na linha de frente: os desafios e riscos da cobertura de zonas de conflito

Na semana em que o International News Safety Institute (INSI) realizou um treinamento de segurança para 20 jornalistas mulheres no Cairo, capital do Egito, a Conferência Global de Jornalismo Investigativo promove o debate sobre as dificuldades enfrentadas por aqueles que se posicionam desarmados na linha de frente do combate.

Segundo dados do Comitê de Proteção aos Jornalistas, a Síria é hoje o país mais perigoso para a prática do jornalismo, com um total de 17 mortos em 2013 e mais de 200 desde o começo da guerra civil há dois anos e meio. Em comparação, ao longo dos seis anos da Guerra do Iraque (2003-2009), 139 jornalistas foram mortos, sendo a maioria iraquianos (veja o infográfico abaixo).

Número de mortes de jornalistas por país (Fonte: CPJ)

Número de mortes de jornalistas por país (Fonte: CPJ)

Apesar dos números alarmantes, o jornalista da revista Tempo da Indonésia, Edi Pramono Stefanus Teguh, acredita que a reportagem em zonas de conflito deve ir além do relatório de óbitos e incidentes. “Cobrir a guerra não é apenas sobre a guerra. Existe uma humanidade por trás que não pode ser noticiada”, afirma o vencedor do prêmio Kate Webb, da AFP, por seu trabalho na Síria e sobre o tráfico de drogas em Jacarta, capital da Indonésia.

Foi seguindo essa diretriz que Pramono Teguh preparou-se durante duas semanas para atuar como infiltrado no distrito de Kampung Ambom, conhecido ponto de tráfico de drogas da Indonésia e apelidado “paraíso dos junkies”. Para realizar esse trabalho, assim como na cobertura da guerra civil na Síria, o jornalista precisou se familiarizar com a cultura local, de forma a compreender o vocabulário e valores da população. “Coletar informações e trabalhar em equipe foi fundamental para poder prever o pior cenário possível e se planejar. Além disso, para construir uma relação de confiança com as fontes, tive que dar um toque pessoal e demonstrar alguma simpatia”, relata.

Estabelecer relações de cooperação pode ser mais difícil do que perigoso. Além dos noticiados e contabilizados casos de prisões, sequestros e agressões de jornalistas, esses também são alvo de ameaças, legislações restritivas e censuras de Estado.

Hamoud Almahmoud, editor-chefe da revista e portal sírios Aliqtisadi, ressalta os entraves impostos pelos regimes autoritários, como a recusa a conceder o visto de entrada no país e a manipulação psicológica através de ligações telefônicas. “Ser um profissional que busca a verdade é a coisa mais difícil na Síria. O governo gosta de capturar jornalistas estrangeiros para ter controle sobre o que será noticiado e poder fazer negociações. Eles se consideram jogadores na relação com a mídia”, explica.

Hamoud Almahmoud, editor-chefe da revista Aliqtisadi (Foto: Isabela Dias/divulgação)

Ainda vai levar um tempo até que os efeitos da guerra civil na Síria sejam amplamente assimilados, mas já se pode afirmar que o conflito iniciado em 2011 tem modificado a forma de se fazer o jornalismo investigativo em zonas de risco. “A Síria é a mais desafiadora guerra dos últimos tempos. É preciso retroceder à guerra do Vietnã para entender as suas dimensões”, pontua Vivienne Walt, colaboradora da Time, em Paris, que já trabalhou no Oriente Médio, norte da África e Europa.

Novos desafios exigem novos métodos de atuação e, principalmente, de preparação. De acordo com Vivienne Walt, muitas empresas de comunicação tem optado por deixar de contratar profissionais freelancer por temer encorajá-los a arriscarem suas vidas sem poder contar com um aparato de segurança e suporte por trás. E os riscos são cada vez mais iminentes. “O fator de risco sempre foi ser pego no lugar errado e na hora errada. Hoje, o jornalista se tornou, ele próprio, o alvo”, adverte.

Para reverter essa situação, é preciso conceder treinamento aos jornalistas. É o que pensa Jonathan Stock, da revista de notícias alemã Spiegel: “Existem muitos ‘newbies’ cobrindo conflitos como o da Síria e que não estão preparados. Além disso, os jornalistas experientes confiam em seus instintos e, por vezes, podem se descuidar. Apesar disso, existe uma oferta considerável de recursos e workshops, principalmente na América do Norte e na Europa”. A preparação não se limita a técnicas de segurança, mas se propõe a oferecer aos jornalistas condições psicológicas adequadas, recorrendo até mesmo a simulações de sequestros. A situação, no entanto, ainda é preocupante. “Acredito que um em cada cem jornalistas estão preparados”, sugere Stock.

Pramono Teguh, jornalista da revista Tempo (Foto: Isabela Dias/divulgação)

 

Para saber mais assista ao vídeo em: http://www.cpj.org/2013/02/attacks-on-the-press-in-2012-video.php

Texto: Isabela Dias (4º ano ECO/UFRJ)

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