Os resquícios da ditadura em biografias

Diferente de outros países da América Latina, onde o regime militar ainda é muito vivo na memória de seus habitantes, a realidade da história da ditadura no Brasil, que durou mais de 20 anos, permanece desconhecida por parte de uma geração de brasileiros.

Há quem se esforce para omitir esse período e obstruir a revelação de fatos históricos relevantes para a democracia no país. Na contramão dessa corrente de desinformação estão jornalistas como Mário Magalhães, do portal UOL, e Audálio Dantas, autor. Em busca de grandes reportagens, eles optaram por personagens emblemáticos desse período para contar parte dessa história oculta.

Magalhães realizou a biografia de Carlos Marighella, principal ícone da luta armada contra a ditadura. Já Dantas mergulhou na vida de Vlado Herzog, jornalista e militante do Partido Comunista Brasileiro na época. Essas imersões deram origem aos livros “Marighella: o homem que incendiou o mundo” e “As duas guerras de Vlado Herzog”.

Ao final da palestra na 8ª Conferência Global de Jornalismo Investigativo, eles concederam entrevista, comentando alguns pontos que permeiam o assunto.

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“Se não houver uma grande vontade de fazer jornalismo é melhor nem tentar” – Audálio Dantas, sobre ser repórter.

Audálio Dantas

Como você vê essa nomenclatura de “jornalismo investigativo”?

Eu acho que há uma definição perfeita: “todo jornalismo é investigativo”. É claro que não se trata do factual, do dia a dia, mas o jornalismo que se aprofunda nas questões, ele tem que ser investigativo. Não que deva sempre descobrir fatos novos, falcatruas, etc, mas ele deve buscar a informação que muitas vezes há pessoas interessadas. Mas acho que é uma condição do bom jornalismo investigar.

Para você quais seriam os requisitos de uma boa reportagem?

Bom, o primeiro é você se inteirar antes, na medida do possível, sobre o assunto que você vai tratar. Segundo, você não pode deixar de fazer nenhuma pergunta, não deve se autocensurar, tem que fazer todas as perguntas necessárias. Porque essas respostas é que vão construir a sua matéria, elas são essenciais no sentido da informação.

Tivemos vários jornalistas aqui hoje jovens e renomados. Que dicas você daria para quem está começando a fazer jornalismo agora?

Essa é uma pergunta difícil porque o jornalismo no Brasil atualmente atravessa uma crise muito complicada. Foi discutido isso aqui. Há uma uniformização da notícia, da informação, a concentração em determinados veículos. No entanto, é essencial que haja vocação para o exercício da profissão. Se não houver uma grande vontade de fazer jornalismo, é bom nem começar.

Você presenciou toda a questão do Vlado Herzog, de quando ele foi assassinado, e também citaram aqui o caso do Amarildo. Qual a relação dos casos?

O Vlado foi mais uma vítima da ditadura militar. Basta lembrar que antes dele foram mortos ou desaparecidos 21 jornalistas. O significado importante e fundamental é de que esse episódio, em função da reação de jornalistas e setores amplos da sociedade, isso transformou o caso Vlado em um marco. Esta luta, principalmente para a classe média do Brasil, parece que foi esquecida porque hoje se praticam torturas e desaparecimentos nas delegacias de polícia. Parece que a média da população acha que isso não significa muito, mas pode acontecer com qualquer um de nós, se formos considerados suspeitos, por qualquer motivo, pela polícia. E já aconteceram casos. Então, quando acontece isso, chovem protestos, mas acho que esses protestos têm que ser permanentes contra esses abusos.

E como o jornalista participa disso?

O jornalista tem a ver com isso, na medida em que também não se discute essa questão, ela fica ausente nos veículos de comunicação. Pelo contrário, até omitem, o que é mais grave. Omitir é um ato de censura. As grandes chacinas que se praticam nas periferias das grandes cidades, a maioria das vezes com participação de policiais corruptos, são noticiários. Ás vezes morrem cinco ou seis pessoas e alguns jornais não se dão ao trabalho de dar os nomes dessas pessoas. Então eu acho que há uma omissão gravíssima da mídia nessas questões.

 

Mário Magalhães
Mário Magalhães e as seiscentas páginas da vida de Marighella

Mário Magalhães

O que te motivou a escolher o Marighella para biografar?

Eu sou um jornalista apaixonado por reportagem e queria fazer uma história para contar a vida de alguém, mas não encontrei personagem com a história mais trepidante, fascinante que a do Marighella. Eu tinha a ambição também de deixar um relato jornalístico, não propagandístico, para que no futuro quem quiser saber o que foi esse século XX frenético no Brasil e no mundo possa ter uma ideia. É isso. Eu sou um repórter e quis fazer uma reportagem.

Que tipos de dificuldades você enfrentou na apuração?

É uma dificuldade combinada, né. Por um lado, a historiografia oficial tentou eliminar o Marighella da história do Brasil. E, por outro lado, ele, por uma questão de sobrevivência, tentou apagar as próprias pegadas. Então, pra quem gosta de reportagem, como Rubens Valente, quanto maiores as dificuldades, maior é o teu desafio, a tua disposição, a tua vontade de êxito.

Você chegou a sofrer algum tipo de censura durante a realização do livro?

Não. Eu padeci das dificuldades oriundas das censuras existentes desde 1911, quando ele nasceu. Na verdade, desde antes, porque o seu Ruy Barbosa mandou queimar os arquivos da escravidão. Então, as informações sobre a mãe do Marighella, que era filha de escravos foi praticamente inexistentes. Eu consegui reconstituir a hora da chegada do pai do Marighella, operário italiano, no Porto da Bahia, qual era a temperatura, qual era o vento, era vento sudoeste, mas eu não consegui saber por exemplo qual era o nome dos avós e da mãe do Marighella. A documentação não sobreviveu. Então a informação documental deficiente do passado combinada com a censura privada e estatal principalmente, durante o século XX.

Conta algumas das tuas fontes documentais.

São 32 arquivos públicos e privados da Rússia, da República Tcheca, dos Estados Unidos, do Paraguai e do Brasil. Todos os arquivos onde obtive documentos relevantes estão citados no livro.

Sabemos que uma reportagem requer uma boa apuração e investigação, mas você disse na tua palestra que um bom texto, bem escrito acaba sendo mais importante ainda. Citou inclusive a Eliane Brum, que é uma escritora que optou pela realidade para preencher os seus “romances”.

É muito difícil tu unir duas qualidades no mesmo profissional: ser um grande apurador e um grande escritor. Quando você une essas qualidades dá num Fernando Moraes e num Ruy Castro. Sobre a ficção e não ficção, a vida real já é tão doida, tão inacreditável que, quando se faz um filme de ficção, para destacar que aquilo é realmente espetacular começa com “baseado em fatos reais”.

Texto e fotos: Alan Miranda (4° ano, ECO/UFRRJ)

Serviço:

Marighella e Vlado Herzog: Biografias de Verdade

Com Mário Magalhães (Uol) e Audálio Dantas (Autor)

Terça, 14 de outubro de 2013 – 11:00

 

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