Reportagens investigativas recebem prêmios no Theatro Municipal

Não apenas de palestras, cursos e workshops foi feita a 8° Conferência Global de Jornalismo Investigativo. Também houve o momento onde os memoráveis trabalhos de investigação tiveram o devido reconhecimento. O local escolhido para abrigar, na noite desta segunda (14), a coroação das reportagens, foi o  Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A noite iniciou em grande estilo com a homenagem prestada pela Abraji ao jornalista Marco Sá Correa. O autor da reportagem premiada com menção honrosa do Esso em 1977, sobre os detalhes da Operação Brother Sam, foi prestigiado com um vídeo que contou com o depoimento de doze colegas de profissão, dando-nos a dimensão da importância deste jornalista na história da comunicação.

Os resquícios da ditadura em biografias

Diferente de outros países da América Latina, onde o regime militar ainda é muito vivo na memória de seus habitantes, a realidade da história da ditadura no Brasil, que durou mais de 20 anos, permanece desconhecida por parte de uma geração de brasileiros. Há quem se esforce para omitir esse período e obstruir a revelação de fatos históricos relevantes para a democracia no país. Na contramão dessa corrente de desinformação estão jornalistas como Mário Magalhães, do portal UOL, e Audálio Dantas, autor. Em busca de grandes reportagens, eles optaram por personagens emblemáticos desse período para contar parte dessa história oculta. Magalhães realizou a biografia de Carlos Marighella, principal ícone da luta armada contra a ditadura.

Faustini: “Quer me matar? Entra na fila!”

Depois de 35 anos de jornalismo, Eduardo Faustini não se arrepende de nenhuma reportagem que fez. Mesmo que, para seguir com o seu trabalho, seja obrigado a se cercar de seguranças e carros blindados 24 horas por dia. Tem vida social restrita e, em casos de urgência, sai do país. Insiste em atender todas as ligações do público, mas ao receber algum envelope ou caixa pelo correio, manda para o raio-x da Rede Globo. Suas matérias vão ao ar aos domingos.

Lei de Acesso à Informação garante um passo à frente para repórteres

Em vigor no Brasil desde 2012, a Lei de Acesso à Informação ainda tem muito avançar. Segundo Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, um exemplo que o Brasil deve ter em mente são os Estados Unidos. “No site da Casa Branca é possível ver os salários de todos que trabalham para o governo, sem maiores obstáculos. Quando você clica para fazer o download, aparecerem diversas opções de arquivo, e cada um escolhe o melhor para o que necessita fazer. Isso sim é a transparência elevada à décima potência”, comenta. Além de Rodrigues, Ivana Moreira (Veja BH) e Marina Atoji (Abraji) participaram da mesa “Mapa de Acesso s Informações Públicas 2013”, na Conferência Global de Jornalismo Investigativo.

Projeto Excelências: conheça os parlamentares brasileiros

O que os congressistas brasileiros tentam esconder? Para responder essa pergunta, a ONG Transparência Brasil criou o projeto Excelências, banco de dados que disponibiliza na internet informações sobre parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado para jornalistas e para a população em geral. Em minicurso apresentado na Conferência Global de Jornalismo Investigativo, o jornalista Claudio Abramo, diretor executivo da organização, explicou o projeto e falou sobre a disponibilização de dados da vida pública brasileira. “A política brasileira é um tema rico em informação e pouco explorado”, afirmou. Segundo Abramo,  o governo brasileiro oferece muito mais informações do que a imprensa e o próprio cidadão se dão conta.

Um olhar sensível para histórias extraordinárias


“Sem o movimento essencial do repórter não é possível fazer nenhuma reportagem”. Essa foi a expressão destacada por Eliane Brum ao longo de toda a sua palestra. Movimento que, para ela, significa a sensibilidade do olhar, de ver o outro e de se colocar no mundo e na vida que o rodeia. A palestra da jornalista, escritora e documentarista dividiu-se em mais duas partes além do movimento essencial: os principais estereótipos ligados à cobertura sobre a Amazônia e a construção da memória oral em contraposição à escrita. “A nossa força como repórter é justamente a consciência pela fragilidade da nossa posição”, disse, destacando em sua fala, mansa e convicta, que é possível notar a paixão e o zelo pela reportagem, bem como sua sensibilidade ao captar as nuances dessa profissão tão singular e das histórias que testemunha. Durante cerca de duas horas, Brum indicou caminhos e possibilidades para todos aqueles que se propõem a reportar os fatos de uma outra forma. Como costuma fazer em suas palestras, Brum leu – ou melhor, recitou – para um auditório lotado ferramentas cruciais à prática do repórter, e ressaltou a responsabilidade diante das histórias que nos propomos a contar. O olhar humilde, mas longe de ser imparcial, seria uma das ferramentas para evitar o que ela chama de anti-jornalismo.

Rostos invisíveis: De frente com as faces ocultas do jornalismo

Três grandes nomes estiveram presentes na palestra sobre Reportagem com Câmera Escondida no segundo dia da Conferência Global de Jornalismo Investigativo 2013, um deles foi Eduardo Faustini, jornalista da TV Globo. André Luiz Azevedo, também da TV Globo e Fernando Molica, ex-diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e editor no jornal O Dia, também participaram da mesa. Conhecer o rosto de Eduardo Faustini foi privilégio dos cerca de 150 participantes presentes, já que não foi permitido filmar ou fotografar o especialista em câmera escondida.“Eu consigo fazer meu trabalho por causa desta ocultação”, explicou o repórter. Enquanto Eduardo Faustini mantem sua identidade resguardada, André Luiz Azevedo é muitas vezes o rosto de suas reportagens. “O Faustini me botou na cara do gol e eu tive o privilégio de não chutar pra fora” elogiou o colega de trabalho. Durante a palestra, foram citados exemplos de matérias feitas com câmera escondida. Foi exibida uma reportagem sobre denúncias de abuso sexual de um médico ortopedista que atendia pacientes em um Posto de Atendimento Médico (PAM), da Zona Norte do Rio de Janeiro. Na opinião de Faustini, a repórter encarregada de flagrar as atitudes indevidas do médico conseguiu o melhor enquadramento da câmera escondida até hoje.

Como fazer jornalismo investigativo na China

A China ocupa a 173ª posição em uma lista de 179 países sobre liberdade de imprensa produzida pela organização Repórteres sem Fronteiras. Como é fazer um trabalho investigativo neste cenário? Tentando responder esta pergunta, a mesa “China e Jornalismo Investigativo”, com os jornalistas Ying Chan, Tiaqin Ji.e Reg Chua, lotou uma das salas da Conferência Global de Jornalismo Investigativo. “A longo prazo, vejo luz no futuro, mas a curto prazo está muito difícil”, afirma Ying Chan. A luz no futuro é a interatividade da web 2.0, que chegou à China em 2008 com a Sina Weibo, rede social mais popular do país.

Usando o Google em favor de suas pautas: busca avançada, Trends e Public Data

O Google não se limita à ferramenta de busca, e a ferramenta de busca não se limita à pesquisa simples. Muitos usuários não tiram proveito de todo o potencial dos aplicativos do Google, e para jornalistas, é particularmente importante saber usá-los bem. Guilherme dos Anjos é gerente de contas sênior da empresa e sua esposa é jornalista, então ele sabe bem como as ferramentas avançadas podem ajudar na apuração de uma matéria. No primeiro dia de Conferência Global de Jornalismo Investigativo, Guilherme mostrou ao público presente na sua apresentação como aperfeiçoar a busca por palavras e por imagens utilizando filtros e operadores e apresentou duas ferramentas menos conhecidas: o Google Trends e o Google Public Data. Filtros de pesquisa

Em uma pesquisa simples do Google, é possível filtrar resultados por país, idioma, data de publicação e cidade.

Para diretor da IRE, jornalismo de dados é possível mesmo em países pouco transparentes

A transparência de governos e empresas desempenha papel importante para as investigações jornalísticas, mas, para Mark Horvit, diretor-executivo da Repórteres e Editores Investigativos (IRE, na sigla em inglês), “sempre é possível fazer jornalismo de dados, independente de onde você estiver”. Professor associado da Escola de Jornalismo da Universidade de Missouri, nos Estados Unidos, Horvit ministrou um workshop sobre uso de banco de dados para iniciantes, na Conferência Global de Jornalismo Investigativo. Segundo o jornalista, ótimos dados têm vindo de países onde o governo não colabora com a divulgação de números. “Em alguns países há a quantidade mínima (de informação), e em alguns lugares o governo não dá dado algum. Você encara matérias diferentes e, também, maneiras diferentes de conseguir o conteúdo”, destaca Horvit, especialista em Reportagem Assistida por Computador (RAC) e participante de programas como o Instituto Nacional de Reportagem Assistida por Computador (Nicar, na sigla em inglês).